M.Espírita

O Primeiro Olhar


"O primeiro olhar é aquele momento em que a vida passa da sonolência para a alvorada.
É a primeira chama que ilumina o íntimo mais profundo do coração.
É a primeira nota mágica arrancada das cordas de prata de um sentimento que poderá nascer.
É aquele momento instantâneo em que se abrem diante da alma as crônicas do tempo, e se revelam aos olhos as proezas da noite, e as vozes da consciência.
Ele é que abre os segredos da Eternidade para o futuro.
É a semente lançada, e espargida pelos olhos do ser amado na paisagem do amor, depois regada e cuidada pela afeição, e finalmente colhida pela alma."
Nada mais cheio de esperança do que o primeiro olhar.
Nenhuma expectativa vã, pois não se teve tempo de esperar ainda. Nenhum sentir fugaz, pois ainda não chegou o tempo do sentir.
Nada interfere no primeiro olhar, durante os infinitos segundos que sobrevive.
Não há tempo. Não há espaço. Apenas olhares que se interpenetram pela primeira vez.
O que buscam ao deixarem-se perder? O que dizem? Quando dizem? Respostas que não virão.
Mesmo que após este, se sigam muitos outros, que os olhos decidam por enamorar-se, e que se visitem diariamente em cada aurora, a lembrança do primeiro fica na retina da alma, na história do Espírito.
E quantos "primeiros olhares" neste exato instante do tempo?
Quantas vidas alvorecem com eles enquanto observamos os carros passando apressados. Enquanto miramos janelas, pessoas. Enquanto consideramos - apenas, então, somente.
Quantas novas chances para a vida são dadas com esses arroubos singelos e transparentes...
Quantas novas forças, novas oportunidades, visões novas sobre um mundo velho...
Quantos reencontros velados pelo esquecimento da memória, se entregam pela lembrança do coração...
O que seria do amor sem o primeiro olhar.

Celebremos o amor que nasce, o amor que promete, o amor potencial.
Celebremos o germe da mesma forma que festejamos o fruto doce.
Exaltemos a vontade de ser borboleta, encontrada na lagarta que nasce.
Festejemos cada novo amor, da mesma maneira que exultamos ao receber no Mundo uma criança.
Não nos deixemos levar pelo pessimismo destruidor de corações partidos, que ainda não permitiram que o tempo cicatrizasse suas chagas.
Não desistamos tão facilmente das potencialidades humanas, debaixo de expressões autofágicas como "Não tem jeito". "Está cada dia pior". "É o fim de tudo".
Acreditar no amor que está por vir é crer na sobrevivência da vida, e lutar por ela.
"O amor é de essência divina e todos vós, do primeiro ao último, tendes, no fundo do coração, a centelha desse fogo sagrado."
"O amor está por toda parte em a Natureza, que nos convida ao exercício da nossa inteligência.
Até no movimento dos astros o encontramos.
É o amor que orna a Natureza de seus ricos tapetes.
Ele se enfeita e fixa morada onde se lhe deparem flores e perfumes.
É ainda o amor que dá paz aos homens, calma ao mar, silêncio aos ventos e sono à dor."

Texto da Redação do Momento Espírita com base em texto de Khalil Gibran, do livro A voz do Mestre, ed. Claridade; do item XVI da Introdução e item 9 do cap. XI de O evangelho segundo o espiritismo, de Allan Kardec, ed. Feb.

A casa mental

Nossa mente é como uma casa. Pode ser grandiosa ou pequenina, suja ou cuidadosamente limpa. Depende de nós.
Você já observou como agimos com relação aos pensamentos que cultivamos?
Em geral, não temos com a mente o cuidado que costumamos dispensar aos ambientes em que vivemos ou trabalhamos.
Quem pensaria em deixar sua casa ou escritório cheio de sujeira, acumulando lixo ou tomado por ratos e insetos?
Certamente ninguém.
No entanto, com a casa mental somos menos atenciosos. É que permitimos que pensamentos infelizes e maus sentimentos encontrem morada em nosso coração.

E como fazemos isso?

Agimos assim quando permitimos que tenham livre acesso às nossas mentes os pensamentos de revolta, inveja, ciúme, ódio.
Ou quando cultivamos desejo de vingança, rancor e infelicidade.
Nesses momentos, é como se enchêssemos de sujeira a mente. Uma pesada camada de pó cobre a alegria e impede que estejamos em paz.
Além da angústia que traz, a mente atormentada influencia diretamente o corpo, acarretando doenças e sofrimentos desnecessários.
E pior: contribui para o isolamento.
Sim, porque as pessoas percebem quando não estamos bem espiritualmente.
O azedume de nossas palavras, o rosto contraído, tudo faz com que os outros desejem se afastar de nós, agravando nossa infelicidade.
E o que fazer para impedir que isso aconteça?
A resposta foi dada por Jesus: orar e vigiar.
A vigilância é essencial para quem deseja a mente saudável.
Nossa tarefa é observar cada pensamento que se infiltra, analisar a natureza dos sentimentos que surgem.
E, principalmente, estar alerta para arrancar como erva daninha tudo o que possa nos prejudicar.
Dado esse primeiro passo que é a vigilância, é importantíssimo estar atento para a segunda recomendação de Jesus: a oração.
Quando identificamos dentro de nós os feios sentimentos, as más palavras e os pensamentos desequilibrados, sempre podemos recorrer à oração.
A prece é um pedido de socorro que dirigimos ao Divino Pai. Quando nos sentimos frágeis para combater os pensamentos infelizes, é hora de pedir auxílio a Deus.
É tempo de falar a Ele sobre a fraqueza que carregamos ou a tristeza que nos abate. É o momento de pedir força moral.
E o Pai dos Céus nos enviará o auxílio necessário.
Mas... de nossa parte, é importante não haver acomodação. É preciso trabalhar para ser merecedor da ajuda que Deus nos manda.
Como fazer isso? Contrapondo a cada mau pensamento os vários antídotos que temos à nossa disposição: as boas atitudes, o sorriso, a alegria, as boas leituras.
Em vez da maledicência, a boa palavra, as conversas saudáveis.
No lugar da crítica ácida, optar pelo elogio ou pela observação construtiva.
Se surgir um pensamento infeliz, combatê-lo com firmeza.

Não se deixe escravizar.
Se alguém o ofender ou fizer mal, procure perdoar, esquecer. E peça a Deus a oportunidade de ser útil a essa pessoa.
Não esqueça: todo dia é excelente oportunidade para iniciar a limpeza da casa mental. Comece agora mesmo.

Redação do Momento Espírita

Apoio aos esquecidos

Charles Plumb era piloto e, certa vez, seu avião foi derrubado, durante uma missão de combate.

Ele saltou de pára-quedas, salvando a vida. Caiu em campo inimigo, foi capturado e passou seis anos como prisioneiro.

Sobreviveu e ao retornar ao seu país, começou a fazer palestras, relatando a sua odisséia e o que a prisão lhe ensinara.

Certo dia, em um restaurante, foi saudado por um homem: “Olá, você é Charles Plumb, o piloto que teve seu avião derrubado, não é mesmo?”

“Sim”, respondeu. “como você sabe?”

“Ora, era eu quem dobrava o seu pára-quedas. Parece que funcionou bem, não é verdade?”

O piloto ficou boquiaberto. Muito grato, afirmou: “Claro que funcionou, caso contrário eu não estaria aqui hoje.”

Naquela noite, ele não conseguiu dormir, pensando e pensando.

“Quantas vezes vi esse homem no porta-aviões e nunca lhe disse ‘bom dia?’ eu era um piloto arrogante e ele, um simples marinheiro.”

Pensou nas horas que o marinheiro passou humildemente no barco, em meio a tantos outros pilotos, tão senhores de si, como ele próprio se considerava.

Pensou que o marinheiro teve em suas mãos habilidosas, que enrolavam os fios de seda dos pára-quedas, as vidas de tantos que nem conhecia.

Mas a sua tarefa bem realizada era a responsável por vários deles continuarem a viver.

Todos os que haviam precisado de um pára-quedas, um dia.

Hoje, quando Plumb inicia as suas palestras, o faz perguntando à platéia: “Quem dobrou o seu pára-quedas hoje?”

Porque a vida é assim. Todos temos alguém cujo trabalho é importante para que possamos seguir adiante.

Precisamos de muitos pára-quedas durante o dia: físicos, emocionais, mentais, espirituais.

Precisamos do coletivo e o motorista nos conduz, tendo nas suas mãos as nossas vidas. Mas nem o olhamos.

Na repartição, aguardamos o cafezinho com quase ansiedade, desejando realizar a pausa entre as tarefas e saboreá-lo, com calma.

No entanto, nos esquecemos de olhar nos olhos da funcionária que o serve, de a cumprimentar, de perguntar se está bem. Sequer lhe sabemos o nome.

Entramos no elevador, dizemos o andar que desejamos, sem desejar um bom dia ao ascensorista que passa horas, dentro daquela caixa, que sobe e desce, sem parar.

Por vezes, perdemos de vista o que é verdadeiramente importante.

Esquecemos das pessoas que nos salvam no momento oportuno sem que lhes tenhamos pedido.

Dos que nos suportam, dos que nos oferecem o ombro amigo para chorar. Dos que ouvem as nossas lamúrias e as nossas alegrias.

Deixamos de saudar, de agradecer, de dizer algo amável, de sorrir.

E que dirá dos amigos espirituais? Nosso anjo de guarda que se desvela em cuidados?

Deus, que todos os dias, pinta quadros novos de beleza para nosso deleite?

Deus, cujo amor nos sustenta, cuja misericórdia nos alcança.

Lembremos de mostrar nossa gratidão.

Um telefonema, um sorriso às pessoas. Um pequeno cartão. Um mimo inesperado em invólucro delicado.

Um instante de reflexão. Uma prece. Uma oração de gratidão.

“Obrigado, Senhor, por tudo que eu tenho. Por tudo que me dás. Pelo pão, pelo ar, pela paz. Por minha vida. Pela vida dos meus amores.

Pelo dia de hoje, obrigado, Senhor.

Equipe de Redação do Momento Espírita com base em texto de autoria desconhecida.

Os mortos vivem

A comemoração dos mortos, hoje denominada Dia de Finados, tem origem na antiga Gália, no território europeu.
É comum no dia de hoje a intensa visitação aos túmulos. E se observam cenas interessantes. Existem os que se sentam sobre os túmulos dos seus amados, e ali passam o dia.
Para lhes fazer companhia. Como se, em verdade, eles ali estivessem encerrados.
Outros lhes levam comidas e bebidas. Para que se alimentem. Como se o Espírito disso necessitasse.
Outros ainda gastam verdadeiras fortunas em flores raras e ornamentações vistosas. Decoram o túmulo como se devesse ser a morada do seu afeto.
Tais procedimentos podem condicionar o Espírito, se não for de categoria lúcida, consciente, mantendo-o ligado aos seus despojos, ao seu túmulo.
Como cristãos, aprendemos com Jesus que a morte não existe. Assim, nossos mortos não estão mortos, nem dormem.
Cumprem tarefas e distendem mãos auxiliadoras aos que permanecem no casulo carnal.
Prosseguem no seu auto-aprimoramento, construindo e reformulando o mundo íntimo, na disciplina das emoções.
E continuam a nos amar.
A mudança de estado vibratório não os furta aos sentimentos doces, cultivados na etapa terrena.
São pais e mães queridas, arrebatados pelo inesperado da desencarnação. Filhos, irmãos, esposos - seres amados.
O vazio da saudade alugou as dependências de nosso coração e a angústia transferiu residência para as vizinhanças de nossa alma.
É hora de nos curvarmos à majestade da Lei Divina e orarmos. A prece é perfume de flor que se eleva e funde abraços e beijos, a saudade e o amor.
Para os nossos afetos que partiram para o Mundo Espiritual, a melhor conduta é a lembrança das suas virtudes, dos seus atos bons, dos momentos de alegria juntos vividos.
A prece que lhes refrigera a alma e lhes fala dos nossos sentimentos.
Não há necessidade de se ter dinheiro para honrar com fervor cristão os nossos mortos. Nem absoluta necessidade de nossas presenças ao lado das suas tumbas. Eles não estão lá.
Espíritos libertos, vivem no Mundo Espiritual tanto quanto estão ao nosso lado, muitas vezes, nos dizendo da sua igual saudade e de seu amor.
Se desejas honrar teus mortos, transforma em pães e peças de vestuário para crianças e gestantes pobres as quantias amoedadas que gastarias na ornamentação dos túmulos e em flores exuberantes.
Oferta-as em nome e por teus amados.

Redação do Momento Espírita.

O Mito da Alma Gêmea

Aristófanes, poeta cômico grego, contemporâneo de Sócrates, afirmou que no começo os homens eram duplos, com duas cabeças, quatro braços e quatro pernas.

Esses seres mitológicos eram chamados de andróginos.

Os andróginos podiam ter o mesmo sexo nas duas metades, ou ser homem numa metade e mulher na outra.

Bem, isso tudo Aristófanes criou para explicar a origem e a importância do amor.

O mito fala que os andróginos eram muito poderosos e queriam conquistar o Olimpo dos deuses, e para isso construíram uma gigantesca torre.

Os deuses, com o intuito de preservar seu poder, decidiram punir aquelas criaturas orgulhosas dividindo-as em duas, criando, assim, os homens e as mulheres.

Segundo o mito, é por isso que homens e mulheres vagueiam infelizes, desde então, em busca de sua metade perdida.

Tentam muitas metades, sem encontrar jamais a certa.

A parte do mito sobre a origem da humanidade perdeu-se ao longo das eras, mas a idéia de que o homem é um ser incompleto, em sua essência, perdura até hoje.

Talvez seja em função disso que o ser humano busca, incessantemente, por sua alma gêmea para preencher sua carência afetiva.

Embora o romantismo tenha sustentado esse mito por milênios, e muitos de nós desejemos que exista nossa metade eterna, é preciso refletir sobre isto à luz da razão.

Se fôssemos seres incompletos, perderíamos nossa individualidade.

Seríamos um espírito pela metade, e não poderíamos progredir, conquistar virtudes, ser feliz, a menos que nossa outra metade se juntasse a nós.

É certo que vamos encontrar muitas pessoas na face da terra com as quais temos muitas coisas em comum, mas são seres inteiros, e não pela metade.

O que ocorre é que, quando convivemos com uma pessoa com a qual temos afinidades, desejamos retê-la para sempre ao nosso lado.

Até aí não haveria nenhum inconveniente, mas acontece que geralmente desejamos nos fundir numa só criatura, como os andróginos do mito.

E nessa tentativa de fusão é que surge a confusão, pois nenhuma das metades quer abrir mão da sua forma de ser.

Geralmente tentamos moldar o outro ao nosso gosto, violentando-lhe a individualidade.

O respeito ao outro, a aceitação da pessoa do jeito que ela é, sem dúvida é a garantia de um bom relacionamento.

Assim, a relação entre dois inteiros é bem melhor do que entre duas metades.

As diferenças é que dão a tônica dos relacionamentos saudáveis, pois se pensássemos de maneira idêntica à do nosso par, em todos os aspectos, não teríamos uma vida a dois.

Pessoas com idéias diferentes têm grande chance de crescimento mútuo, sem que uma queira que o outro se modifique para que se transformem num só.

Assim, vale pensar que embora o romantismo esteja presente em novelas, filmes, peças teatrais, indicando que a felicidade só é possível quando duas metades se fundem, essa não é a realidade.

Todos somos espíritos inteiros, a caminho do aperfeiçoamento integral.

Não seria justo que nossos esforços por conquistar virtudes fosse em vão, por depender de outra criatura que não sabemos nem se tem interesse em se aperfeiçoar.

Por todas essas razões, acredite que você não precisa de outra metade para ser feliz.

Lute para construir na própria alma um recanto de paz, de alegria, de harmonia e segurança, como espírito inteiro que é.

Só assim você terá mais para oferecer a quem quer que encontre pelo caminho, com sua individualidade preservada e com o devido respeito à individualidade do outro.

Pense nisso!

Equipe de Redação do Momento Espírita, com base no cap. II, do livro A Filosofia e a Felicidade, de Philippe Van Den Bosch, ed. Martins fontes.

CEP Concórdia