Um famoso pensador, ao ser entrevistado, afirmou que uma das perguntas de maior teor filosófico que mais o fez pensar nos últimos tempos, tinha vindo de sua filha, uma menina de poucos anos de idade.

Afirmava o entrevistado que, certa feita, ao dar o beijo de boa noite para sua pequena, ela o surpreendeu com a seguinte pergunta: Pai, quando você morrer, irá sentir saudades de mim?

A pergunta da menina, longe da ingenuidade infantil, traz no seu bojo profundos questionamentos filosóficos. Você mesmo já se surpreendeu pensando naqueles que lhe antecederam na viagem de retorno ao mundo espiritual?

Já se perguntou onde estarão eles? Sentirão saudades de mim?

Ou já pensou em algum momento: Como pode o manto da morte ser capaz de destruir sonhos, romper laços fraternos, separar aqueles que se amam?

E já se questionou se aqueles a quem queremos bem, que nos são caros ao coração, que convivemos anos a fio, compartilhando anseios, dúvidas, desafios, medos, com a morte ficam irremediavelmente afastados de nós?

É comum dizermos Perdi meu pai, ou Perdi meu filho, quando esses se vão com o fenômeno da morte. Será verdade que os perdemos?

Quando Mary sonhou pela primeira vez, ficou impressionada. Sonhara com uma menina de cabelos cacheados, pele muito branca, que deveria ter uns seis ou sete anos.

Ela não lembrava exatamente o que haviam conversado mas a clara impressão, ao despertar, é de que a garota viera anunciar que iria nascer em sua casa.

A família riu, considerando a impossibilidade orgânica de uma gestação, àquela altura da vida.

As semanas, com seus compromissos e afazeres, se passaram e o fato caiu no esquecimento.

Entretanto, o sonho se repetiu, revestido de maior intensidade. Mary sentiu a real possibilidade de uma filha vir compor seu universo familiar.

Finalmente, quando se reprisou pela terceira vez, ela afirmou ao marido que adotariam uma criança.

Mas, os que fazeres do cotidiano fizeram com que o assunto caísse no esquecimento. Até o dia em que a filha revelou a sua gravidez, fruto do relacionamento com o namorado.

Algo não pensado, não idealizado. Acontecera.

Enquanto Laura tudo relatava, Mary concluiu: Era dessa forma que a menina do sonho voltaria para o seu lar.

Desde eras primitivas, os seres humanos aprendemos a desenvolver ferramentas e instrumentos para facilitar o trabalho e tornar nossa existência menos árdua.

Das primeiras lascas de pedra, utilizadas para cortar, desbastar e raspar, até os aparatos tecnológicos mais modernos, que agilizam atividades e operações, vimos empregando nossa inteligência no desenvolvimento e na criação de soluções para problemas e desafios.

Porém, da mesma forma que criamos essas ferramentas para alavancar o progresso, uma parcela de nós, movidos por ganância, orgulho e egoísmo, nos servimos delas para nos impor sobre os demais, para humilhar, destruir, roubar.

Criamos o machado para cortar troncos e abrir picadas na mata, possibilitando nos deslocarmos com mais desenvoltura.

No entanto, alguns o utilizamos para agredir e matar companheiros de jornada, a fim de lhes roubar os frutos do seu trabalho e esforço.

Criamos a escrita. Com ela escrevemos leis, cânticos, livros e poemas maravilhosos. Outros a utilizamos para assinar sentenças de morte e registrar ofensas e injúrias.

Com o avião vencemos os ares e encurtamos distâncias. Contudo, quando nos voltamos para a guerra, vimos nele a ferramenta perfeita para lançar bombas sobre cidades e povoados, matando milhões de pessoas.

Desenvolvemos medicamentos para aliviar dores, curar e diminuir o sofrimento humano.

Homens maliciosos nos utilizamos de algumas dessas substâncias para criar mecanismos de fuga da realidade, produzindo-as em larga escala, auxiliando a viciar milhões de seres que se perderam no consumo indiscriminado de drogas.

A invenção da roda e, posteriormente, do automóvel, facilitou o nosso deslocamento, também o transporte de cargas, impulsionando o progresso.

Vivemos tempos nos quais a indiferença e a intolerância para com as pessoas, muitas vezes, criam situações de sérias discórdias.

Observamos que o respeito devido ao próximo parece estar ficando um tanto distante.

No entanto, existem felizes exceções que, além de mostrar respeito, nos garantem que o amor ao próximo ainda viceja entre nós.

Relata uma senhora da capital baiana que um carregador de maca, em um hospital, viu uma paciente de oitenta e seis anos chorando de dor.

Suas costas, cheias de feridas, necessitavam de um colchão especial.

Com muito carinho, ele providenciou o colchão. Enquanto o colchão era posicionado na cama, ele a segurou em seu colo.

Como ela chorasse muito, ele começou a cantar baixinho uma canção. A idosa foi se aquietando e adormeceu antes mesmo de voltar a ser acomodada no leito.

Esse maqueiro é muito conhecido pelo pessoal do hospital, pela atenção e carinho com que lida com os pacientes.

Sua dedicação não passou despercebida. O diretor do hospital, buscando recompensar sua dedicação, reuniu os seus colegas e propôs que, com pequena contribuição de cada um, providenciassem melhorias na pequena casa desse servidor.

Foi com lágrimas nos olhos que o dedicado maqueiro agradeceu o que considerou um presente. Afinal, ele e o filho dormiam em colchões no chão.

Conta uma fábula que, em um país distante e montanhoso, um lago e um riacho viviam lado a lado.

O lago ficava no pé da montanha e o riacho descia de um ponto mais alto.

O lago muito orgulhoso dizia ao pequeno rio: Veja como sou grande e bonito.

Sim, respondia o riacho, você deve ter muitos amigos, pois pode dar de suas águas para quem queira beber. Eu ainda sou tão pequeno!

O lago respondeu que se desse de suas águas para todos que dela necessitassem, se tornaria menor.

Um dia, um cabrito se aproximou para beber água, e o lago o expulsou.

O riacho, penalizado, chamou-o e, mesmo tendo pouca água, ofereceu-a para lhe matar a sede.

Mais tarde, um bando de andorinhas pediu água ao lago, que tornou a negá-la.

O riacho, vendo-as cansadas, ofereceu-lhes das suas águas, e elas beberam felizes.

Em um dia muito quente, um rato pediu ao lago que espalhasse suas águas para que chegassem até onde se encontrava um coelho com a pata quebrada, e que padecia muita sede.

Nada tenho com isso, disse o lago, recusando-se.

O riacho desejava ajudar mas suas águas não alcançavam o local onde se encontrava o animal ferido.